




Feminismo de raiz
Joan Jett marcou a história do rock por formar a primeira banda só de mulheres em 1975, quando o próprio ato de tocar uma guitarra era uma transgressão. Hoje, tantos anos depois, não há muito de contestador em suas atitudes e canções, que agora já ganharam o status de clássicas. Sem muitas encenações, este show era sobre uma mulher fazendo rock - e ponto.
À frente do Blackhearts, a cantora já chegou empolgando e abriu o show com "Bad Reputation", seguida de "Cherry Bomb", hit do Runaways. "Do You Wanna Touch Me" foi outra que fez a plateia cantar junto mas, em "Victim of Circumstance", os vocais de Jett não atingiam mais as notas necessárias, denunciando a fragilidade de seus 53 anos. Ainda assim, a cantora dominava a plateia e trouxe até músicas novas, "TMI", "Hard to Grow Up" e "Naked", mas usando uma partitura, caso esquecesse as letras. Os hits "Crimson and Clover" e "I Love Rock 'n' Roll" antecederam o fechamento do show, com "I Hate Myself for Loving You" e o bis "A.C.D.C.". Ao fim do show, a impressão que ficou é que vimos ali um ícone do rock que não soube acompanhar as mudanças do tempo e hoje vive dos sucessos de sua juventude. Tudo feito com muita competência, mas como uma volta ao passado.
O momento mais esperado da noite
Pontualmente às 20h30, o Foo Fighters subiu ao palco Cidade Jardim, pronto para cumprir todas as altas expectativas da enorme plateia, elevando os níveis de desconforto na arena. Com um show já bem ensaiado e redondinho, apresentaram o que parecia ser o setlist perfeito para qualquer fã da banda. Abriram o show com "All My Life" e já emendaram "Times Like These", fazendo o público delirar, pular e cantar junto.
Dave Grohl realmente sabe como lidar com uma plateia e ele que mandou e desmandou naquele mar de 70 mil pessoas. Além de guitarrista e vocalista, ele é um frontman dedicado que verdadeiramente se importa em fazer com que cada um ali esteja se divertindo e em se conectar com o público. Quando ele corria para a extremidade do palco onde eu estava, sentia que ele realmente olhava para cada pessoa ali. É esse elemento humano que realmente diferencia um show do Foo Fighters dos demais. Muitas bandas apresentam suas músicas perfeitamente, mas momentos de conexão tão fortes são para poucos.
O sucesso de seu último disco, Wasting Light, ficou evidente com a multidão cantando junto quase todas as músicas novas, mais até que alguns dos sucessos do início de sua carreira. "Rope", "The Pretender", "My Hero" e "Learn to Fly" foram uma ótima sequência de hits, seguida de "White Limo", cujos vocais gritados exigiam mais de Grohl e seu cisto na garganta deu as caras. Ainda assim, Grohl parecia gritar só por gritar, como que desafiando alguém a ousar dizer que ele não estaria mais aguentando.
Um dos momentos mais legais do show foi quando Taylor Hawkins convocou Grohl a assumir a bateria em "Cold Day in the Sun", e assim pudemos presenciar também o Dave Grohl baterista que fez história no Nirvana, com os vocais desajeitados de Hawkins (nada mais apropriado, já que ele foi o único ovacionado pelo nome quando Grohl apresentou a banda). "Stacked Actors" veio misturada com um cover de "Feel Good Hit of the Summer", do Queens of the Stone Age, e mais tarde a já conhecida versão de "In the Flesh", do Pink Floyd, marcaria presença também. "Best of You" encerrou o primeiro segmento do show, com um coro invejável no "Oh...Oh...Oh...Oh...", trazendo até lágrimas aos olhos de alguns fãs mais alucinados.
Antes do bis, surgiu no telão um engraçado vídeo de Grohl e Hawkins discutindo quantas músicas a mais tocariam. Voltaram ao palco com "Enough Space", seguida do hit antigo "For All the Cows" e a nova "Dear Rosemary". Dave Grohl então entrou em um grande discurso sobre a importância do rock underground e as primeiras vezes que assistiu um show do Jane's Addiction, em sua cidade natal, e a importância das pessoas que marcaram o rock. Por um momento, ele enganou a plateia dando a entender que talvez Perry Farrell poderia fazer uma participação especial, mas tudo aquilo foi para apresentar Joan Jett. Quem não assistiu "Bad Reputation" e "I Love Rock 'n' Roll" do outro lado da arena teve agora sua oportunidade - e com uma banda de apoio bem mais carismática. O festival chegou ao fim com "Everlong", sucesso do álbum The Colour and the Shape (1997), fechando com catarse coletiva aquele show incrível.
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